Presidente
José Eduardo dos Santos, nos 29 anos da Independência
de Angola:
“É necessário manter a estabilidade política
actual”
O
Presidente da República de Angola, Camarada José Eduardo
dos Santos, destacou a necessidade de se manter a estabilidade política
actual para que se continue a procurar soluções consensuais
para uma transição tranquila e exemplar, no espírito
da reconciliação e concórdia nacional. O Chefe
de Estado falava (11/11), na cidade do Namibe, litoral Sul de Angola,
no Acto Central das celebrações do 29º aniversário
da proclamação da Independência Nacional.
Ainda no seu discurso, amplamente aplaudido num comício popular,
o Presidente José Eduardo dos Santos recomendou: “É
necessário, também, que criemos as melhores condições
possíveis para que o povo angolano escolha livremente, sem
qualquer interferência externa, os seus dirigentes”.
Eis
o discurso, na íntegra:
“SENHOR
GOVERNADOR DA PROVÍNCIA DO NAMIBE!
SENHORES MINISTROS!
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES!
CAROS COMPATRIOTAS DO NAMIBE!
POVO ANGOLANO!
Terminámos
ontem a reunião da Comissão Permanente do Conselho
de Ministros nesta província. Hoje, viemos a esta praça
para vos saudar calorosamente e render uma grande homenagem a todos
os que participaram na luta de libertação, consentindo
enormes sacrifícios pela conquista da Independência
nacional.
Merecem também o nosso tributo todos aqueles que defenderam
com bravura, por todos os meios, a integridade territorial e a soberania
do povo angolano, contra as forças agressoras estrangeiras,
que tentaram, várias vezes e durante muitos anos, directa
ou indirectamente, colocar o nosso país sob a sua dependência.
Graças ao esforço destes corajosos patriotas, o povo
angolano é hoje livre, conquistou a paz e decide sobre o
seu destino. Antes da independência não havia ministros,
deputados, nem Presidente da República, angolanos. Na parte
urbanizada de todas as cidades e vilas eram pouquíssimas
as famílias africanas que aí viviam.
O normal era o angolano, instruído ou não, viver nos
musseques, nas aldeias ou quimbos, em casas sem luz eléctrica
e sem água canalizada. Os operários eram explorados
quase sem limites. Os camponeses eram obrigados a realizar trabalhos
forçados, como contratados de um senhor feudal.
Na Administração Pública, os chefes eram quase
todos estrangeiros. Mais de 98 por cento dos angolanos eram analfabetos.
Não havia mais de cem angolanos com curso superior! Pouco
antes da independência, quase todos os quadros administrativos,
técnicos e empresários estrangeiros abandonaram Angola.
Os angolanos, largados assim à sua sorte, ficaram sob a liderança
do Dr. Agostinho Neto, que era uma pessoa clarividente e determinada.
Ele faleceu quatro anos depois. O Mundo pensou que não iríamos
sobreviver. Mas Angola continua de pé, unida e reconciliada
e constrói, com firmeza, o seu futuro próspero.
Recordo isto para que as novas gerações não
se esqueçam nunca de onde partimos e possam comparar as situações
de modo sensato. Quem havia de resolver os complexos problemas nacionais
no domínio da Administração, da Gestão
e dos negócios empresariais, se não havia quadros
nem grandes capacidades técnicas nacionais instaladas?
Os dirigentes de então fizeram o que puderam, muitas vezes
por intuição e não porque possuíam um
grande arcaboiço técnico e administrativo necessário
para o efeito, porque não tiveram nem tempo nem oportunidades
para o adquirir.
Hoje, na era da Independência, tudo está a mudar. Muitas,
mas muitas famílias mesmo, estão a melhorar a sua
qualidade de vida. É certo que a maioria ainda não,
mas acredito que a vez delas também há-de chegar.
A Independência é irreversível. Não vai
acabar. Cria as condições de trabalho em liberdade.
Temos por isso de fazer mais e cada vez mais, para melhorar a nossa
vida. Cada um de nós deve trabalhar um pouco mais para que
cada vez mais angolanos possam melhorar a sua qualidade de vida,
até liquidarmos totalmente a pobreza e a fome no país.
Temos de ser mais imaginativos, para sermos mais rápidos
na acção.
A nossa marcha para o progresso ainda é lenta. Espero que
os quadros que formámos tragam novas ideias e iniciativas,
que dêem novo dinamismo ao processo de construção
da Angola independente, democrática e próspera. É
com este espírito que estamos aqui, na província do
Namibe.
O Governo apresentou à Assembleia Nacional, para aprovação,
as suas propostas de Programa Geral para 2005 e 2006 e de Orçamento
Geral do Estado para 2005. Na Assembleia Nacional estão os
representantes eleitos do povo angolano que, em cooperação
com os outros órgãos de soberania, decidem livremente
sobre os destinos da Nação. Eles vão, por isso
definir, as orientações para a nossa actividade a
partir do mês de Janeiro.
Tarefas
para os próximos dois anos
Nos
próximos dois anos vamos trabalhar para:
1) Consolidar a paz e a reconciliação nacional;
2) Edificar as bases para a construção de uma economia
nacional integrada e auto-sustentada;
3) Restabelecer a Administração do Estado em todo
o país;
4) Promover o desenvolvimento dos recursos humanos;
5) Promover o desenvolvimento harmonioso do território nacional;
6) Consolidar o processo democrático, criando as condições
para a realização das eleições gerais.
Esse Programa e Orçamento terão reflexos em todas
as províncias. Tal como nos últimos dois anos, desta
vez também serão destinados recursos às províncias
para projectos de âmbito local. Antes de darmos esse passo,
porém, teremos de verificar se o dinheiro público
recebido em 2003 e 2004, para o mesmo fim, foi bem gerido e aplicado.
Caros
compatriotas!
Povo angolano!
Teremos
também de analisar os erros cometidos, a fim de os corrigir,
melhorar a fiscalização e realizar mais inspecções
financeiras. Não vamos interromper os programas provinciais,
que estão a dinamizar a actividade económica e social
de carácter local e a contribuir para criar empregos, para
oferecer oportunidades de negócios aos empresários
angolanos e para combater a pobreza e acabar com a fome.
Anunciei no Luena, logo depois da conquista da paz, que, terminada
que estava a guerra, a primeira prioridade do Governo é erradicar
a fome. Nesse sentido, foi feita uma gestão mais cuidadosa
das finanças públicas. A inflação baixou
muito, a moeda nacional tornou-se mais estável, o valor real
dos salários aumentou, embora eles ainda estejam abaixo do
desejado.
Grupos
empresariais estrangeiros manipulam os preços
A
produção, entretanto, aumentou muito pouco. Continuamos
a importar quase tudo. Os preços dos bens essenciais de consumo,
importados, continuam a aumentar sem qualquer justificação.
Três ou quatro grandes grupos empresariais, controlados por
cidadãos estrangeiros, dominam o comércio grossista
e manipulam os preços, criando dificuldades evitáveis
à gestão macro-económica do Governo e complicando
a vida dos angolanos que os acolheram com toda hospitalidade e simpatia.
Os lucros fabulosos que esses grupos fazem não são,
pelo menos em parte, reinvestidos no país. Há, por
isso, uma sangria constante de divisas da nossa economia. A quadra
festiva do Natal e do Ano Novo é normalmente o momento em
que esses preços aumentam assustadoramente, sem razões
plausíveis.
Eu peço a esses empresários ponderação.
Que eles cooperem mais com as entidades competentes do Governo,
que contribuam para a estabilidade dos preços, ajudando assim
a atenuar o sofrimento dos angolanos. Peço também
aos empresários angolanos mais capazes que se envolvam também
nessa área de actividade económica, a fim de se aumentar
a concorrência. Que multipliquem as suas iniciativas nos diversos
ramos da produção de bens, para reduzirmos ou substituirmos
as importações e aumentarmos as exportações
no futuro.
O Governo tomará decisões mais adequadas para superar
as suas deficiências no domínio da coordenação
inter-sectorial e da implementação de medidas de carácter
estrutural, que permitam relançar a produção
interna de bens e serviços.
Vai ser revista a política agrícola, com a finalidade
de melhor organizar e direccionar o apoio a prestar aos camponeses
e os incentivos e facilidades a conceder aos empresários
que queiram realizar grandes investimentos na área da agricultura.
Será também reavaliada a aplicação da
política de privatizações no sector produtivo
em geral. A realidade mostra que não vale a pena continuar
a ceder empresas ou qualquer património público a
quem não tenha vocação para negócios.
Nós precisamos de pessoas empreendedoras que possam preencher
o espaço que o Estado deixa, à medida que se retira
da produção, sem prejudicar o desenvolvimento da economia
nacional.
No quadro da sua agenda social, o Governo continuará a desenvolver
esforços para melhorar a situação nos sectores
da Educação, Saúde, Cultura, Desporto, etc.
Queremos ver definida a política sobre o livro e começar
a produzir, já no próximo ano, uma parte significativa
dos livros escolares em Angola.
Produção
de medicamentos no país
Queremos
também ver definida e melhor regulamentada a política
dos medicamentos, começando, também em 2005, a produção
no país da maior parte de medicamentos genéricos necessários.
O esforço feito para a educação, prevenção
e combate contra o HIV/SIDA não está ainda à
altura da ameaça que esta pandemia representa. Temos todos,
mas todos, Governo, organizações não-governamentais,
pessoas de boa vontade, etc., que fazer muito mais para reverter
a situação actual. O HIV/SIDA é, na verdade,
uma ameaça à segurança nacional.
A seca e a captação de água de água
para as províncias do Namibe e Cunene estão no centro
das nossas atenções. Este é um bem primoroso
que faz muita falta à vida humana e à vida animal.
Falei de alguns assuntos que são urgentes e que constam do
Programa do Governo. Este programa vai ser editado e peço
a todos os cidadãos que procurem ter um exemplar.
Estamos conscientes que a condução destas tarefas
será efectuada num período em que a vida política
nacional será dominada pela necessidade de se criarem as
condições para a realização das eleições
gerais em Angola. Alguns ministérios, tais como o da Administração
do Território, do Interior, dos Correios e Telecomunicações,
dedicarão a maior parte do seu tempo ao tratamento deste
assunto. Isto é, à criação de condições
para a realização de eleições. Outros
terão no centro da sua atenção a criação
de condições para de conforto e bem-estar dos cidadãos
Eu penso que a maior parte da equipa governamental vai trabalhar
nesta frente que resolve as questões materiais, pois a democracia
e os direitos humanos, embora essenciais, não enchem a barriga
de ninguém. São um alimento espiritual e moral ou
político que apenas pode criar novas condições
para o trabalho.
Caros
compatriotas!
Não é muito o tempo que nos separa das próximas
eleições gerais previstas para 2006. Depois de muita
polémica à volta da elaboração da Constituição,
os partidos com assento na Assembleia Nacional estão a formular
os seus projectos de lei sobre as eleições na base
da actual Constituição. Esta pode ser uma opção.
O que interessa é que a Assembleia Nacional aprove, tão
depressa quanto possível, o pacote de leis necessárias
para preparar e realizar essas eleições.
Nesta opção, o período de transição
iniciado com a aplicação dos Acordos de Bicesse e
o Protocolo de Lusaka não vai terminar em 2006, como foi
previsto pelo Conselho da República. Esta é uma questão
que tem de ser resolvida. A ideia de se realizar a eleição
presidencial um ano depois das eleições legislativas,
sendo a Constituição aprovada depois das legislativas,
mas antes das presidenciais, pode ser uma saída. Esta solução
foi sugerida pelo Pld e, certamente, merecerá a atenção
das forças políticas nacionais.
É necessário que mantenhamos a estabilidade política
actual e que continuemos a procurar soluções consensuais
para uma transição tranquila e exemplar, no espírito
da reconciliação e concórdia nacional. É
necessário também que criemos as melhores condições
possíveis para que o povo angolano escolha livremente, sem
qualquer interferência externa, os seus dirigentes.
Nós formámos muitos quadros e continuaremos a formar.
Há cada vez mais angolanos aptos, política e tecnicamente,
para a construção espiritual e material da Nação,
para a construção da nova Angola próspera e
democrática, em que cada um possa realizar o seu sonho.
Contribuição
ímpar da província do Namibe
A
província do Namibe está a dar a sua contribuição
ímpar para que esse tempo chegue o mais depressa, com as
realizações importantes, algumas das quais inauguramos
durante a nossa visita.
O desenvolvimento que todos desejamos não se fará,
contudo, sem o contributo da educação e de uma melhor
formação profissional. Neste sentido, temos reunidos
esforços para possibilitar a extensão do ensino superior
e médio para o interior do país. Já no próximo
ano, o pólo universitário do Namibe começa
a funcionar, sendo capaz de acolher, nos seus diversos cursos, cerca
de cinco mil estudantes.
Os jovens que habitam nesta província poderão seguir
o curso universitário escolhido e depois contribuir, com
o seu saber e a sua capacidade de trabalho, para o engrandecimento
do Namibe e do país em particular.
Caros
compatriotas!
Assim, o Namibe está, pois, no caminho certo, está
no caminho das realizações. Parabéns a todos
vós e votos de boa saúde.
Meus amigos e compatriotas do Namibe!
Fomos muito bem recebidos, ouvimos canções, palavras
de carinho. Vi por todos os cantos pessoas dispostas a trabalhar.
Dizem que os santos de casa não fazem milagres, mas os santos
do Namibe estão a fazer milagres.
Viva o Namibe!
Quero ver o Namibe a crescer.
Viva Angola!
Viva o 11 de Novembro!”. |