Oração
de sapiência proferida pelo Presidente Dos Santos, por ocasião
do seu doutoramento “Honoris Causa”, na Universidade
Federal Da Bahia:
“Caminhamos no sentido da roda da História”
O Camarada
Presidente José Eduardo dos Santos defendeu (02/05), no Estado
brasileiro da Bahia, que os governos africanos não precisam
de ter uma participação directa na administração
dos fundos. Devem, sim, ter a prerrogativa de aprovar projectos.
Ao mesmo tempo, testemunhou que os africanos mais conscientes estão
assumindo, cada vez com maior determinação, as suas
responsabilidades perante a história.
E expressou: “O que eu penso quanto ao futuro é que
a África precisa de que cada governo arrume a sua casa em
primeiro lugar, garantindo paz, promovendo a reorganização
e saneamento das finanças públicas, a definição
de objectivos gerais e específicos a atingir, a criação
de condições para libertar a iniciativa criadora dos
indivíduos, das associações cívicas,
profissionais e culturais e dos homens de negócios”.
“Magnífico
reitor da Universidade Federal da Bahia!
Excelentíssimos senhores dignitários do Estado da
Bahia!
Estimados membros do corpo docente e discente da UFB!
Ilustres convidados!
Minhas senhoras e meus senhores!
Agradeço
ao magnífico reitor da Universidade Federal da Bahia e aos
ilustres membros do seu Conselho Científico pela outorga
do título de Doutor “Honoris Causa”.
É para mim uma grande honra receber esta distinção
no anfiteatro desta muito prestigiada instituição
académica, na presença de proeminentes figuras da
Ciência, da Cultura e das Artes do Brasil.
Considero a vossa decisão como o reconhecimento do mérito
do povo angolano na defesa da sua soberania e de outras conquistas
nacionais, face a todas as adversidades por que passou durante séculos.
Registo esse gesto também como um sinal positivo dado a Angola
pela sua contribuição na resolução dos
problemas regionais e mundiais. Afinal, os angolanos, como muitos
outros africanos, foram, por razões históricas, espalhados
por várias partes do planeta, onde colocaram a sua pedra
para o edifício do Mundo que temos hoje. Eles "merecem
o seu pedaço de pão" e um lugar digno em todas
as sociedades.
No meu país, orgulha-me o facto de ser o símbolo e
o porta-estandarte deste esforço, dando continuidade à
obra de Agostinho Neto, com as necessárias adaptações
à nova realidade.
“Iremos
construir um futuro melhor”
Nós
caminhamos no sentido da roda da História. Com os pés
assentes no presente e com espírito crítico e criativo,
iremos construir um futuro melhor. Temos sempre presente que "Liberdade,
Igualdade e Fraternidade" são palavras que sintetizam
a vontade de mudança dos povos e marcam o começo de
um percurso da humanidade para um Mundo sem opressão e sem
injustiça social.
As elites progressistas e todas as pessoas da época sujeitas
à humilhação e crueldade das classes dominantes
encontraram nelas a fonte de inspiração e de energias
para as suas reivindicações e o sinal de esperança
numa vida melhor.
De facto, desde então muita coisa mudou. Os regimes absolutistas
foram derrubados, as regras no seio das sociedades humanas sofreram
grandes alterações no sentido positivo, modificaram-se
as relações entre grupos, classes sociais, nas comunidades
e entre governantes e governados.
O trabalho escravo foi abolido, assim como o trabalho obrigatório
ou forçado. Cada pessoa adquiriu a liberdade de colocar a
sua força de trabalho no mercado. Conquistou-se a liberdade
de expressão e de reunião. Todas as constituições
passaram a consagrar nos seus textos capítulos dedicados
às liberdades, direitos e garantias.
Não terminou apenas o sistema de opressão individual.
A subjugação dos povos, através do colonialismo,
também foi erradicada e estabelecida ou restabelecida a dignidade
e a soberania desses povos, por mérito próprio do
seu esforço libertador.
“Estamos,
por enquanto muito longe da meta”
É
um palmarés animador que poderia deixar toda a gente orgulhosa,
descansada e feliz. Mas não é esse ainda o caso. Penso
que estamos, por enquanto, muito longe da meta.
A pobreza que existe em todos os continentes e atinge dezenas de
milhões de seres humanos em todo o Mundo, o crescimento do
desemprego, a desigualdade e injustiça social, decorrentes
da aplicação dogmática das regras do mercado,
colocou sérios avisos à nossa imaginação.
Coloca na ordem do dia a questão da paz, da segurança
e da estabilidade em vários Estados e regiões do planeta
e a questão de saber se é realmente este o Mundo que
queremos.
A resposta a esta questão pode ser individual ou colectiva.
Penso que a imensa maioria das pessoas diria que este não
é o Mundo com que sonhamos, capaz de garantir liberdade,
igualdade e prosperidade para todos.
Apreciemos alguns factos:
1. Os países africanos, particularmente os que se situam
ao Sul do Sahara, são os que apresentam os mais baixos índices
de desenvolvimento. O esforço considerável por eles
feito após a independência não foi capaz de
superar a pesada herança colonial, nem o enorme atraso que
os separa dos países desenvolvidos.
2. No período colonial, a potência administrante, normalmente
estrangeira, exercia todos os direitos de posse sobre os recursos
naturais e definia os mecanismos para a sua exploração
e valorização, embolsando directamente os rendimentos
para a sua manutenção e para o desenvolvimento das
respectivas metrópoles, deixando as populações
locais na miséria e transformando a sua força activa
em reserva de mão-de-obra barata. O trabalho qualificado,
administrativo ou técnico não era normalmente executado
por quadros locais.
3. Conquistada a independência, as novas nações,
por falta de recursos técnicos e de capital, viram-se obrigadas
a estabelecer acordos de parceria institucional e empresarial com
entidades oriundas das ex-potências coloniais, sendo os produtos
canalizados para os seus mercados como matéria-prima a determinados
preços.
4. A falta generalizada de capacidades de transformação
dos produtos levou quase todas as novas nações a recorrer
à importação de produtos manufacturados e de
equipamentos, para satisfazer as necessidades em vários domínios,
a preços mais altos que os das matérias-primas exportadas.
E passaram assim a acumular dívidas, colocando-se numa situação
de devedoras e de dependência permanente. Nesta base desigual
de partida é muito difícil determinar quando é
que os contratos são realmente justos. O certo, porém,
é que nunca são adequados à necessidade de
mudança deste cenário infernal, em que quem é
rico se torna cada vez mais rico e mais forte. A partir daí
são arquitectadas umas relações económicas
e financeiras que tornam os governos das nações africanas
cada vez menos capazes de resolverem os problemas das suas populações.
5. Criar capacidades nacionais em todos os domínios da vida,
especialmente no domínio produtivo e no sector de serviços,
obedecendo a uma ordem de prioridades, parece ser o caminho a seguir.
Porém, isso também requer meios que normalmente não
existem em número suficiente, nem no sector público
nem no privado. O princípio da igualdade e das vantagens
mútuas no contexto global passa a ser teórico, autêntica
retórica, pois o mais forte não partilha normalmente
o que tem em partes iguais com o mais fraco. Chega-se à conclusão
que estamos num torneio em que todos os jogos já estão
perdidos no curto prazo. Só podemos ascender aos lugares
cimeiros se passarmos a ganhar os jogos no médio e longo
prazos. Há que conceber estratégias concretas e formar
boas equipas técnicas de execução e controlo,
com pessoas que não se preocupam apenas com os seus problemas,
mas que sabem colocar o interesse geral acima dos seus. Apesar do
que se diz, em África há boa gente, capaz de assumir
essa postura com dignidade, a todos os níveis.
“É
preciso evitar que a árvore desnecessária nos impeça
de ver a floresta que está a queimar”
A falta
de transparência dos actos administrativos de gestão
e a corrupção é também uma das causas
da crise em certos países. A mesma tem sido empolada por
conveniência política, mas é preciso evitar
que a árvore desnecessária nos impeça de ver
a floresta que está a queimar.
Devemos ajudar a África a atacar com realismo as causas fundas
dos seus principais problemas. As relações com as
suas nações devem assentar em novas bases, nomeadamente:
1. Apoio à consolidação de Estados democráticos,
no respeito dos princípios da igualdade e não ingerência;
2. Partilha equilibrada de benefícios; 3. Integração
de África na condução dos destinos dos povos
do nosso planeta, o que implica a participação em
pé de igualdade com os países mais desenvolvidos,
no Conselho de Segurança da ONU e no G-7.
Excelências!
Minhas Senhoras e Meus Senhores!
É
um mundo de paz e bom entendimento entre todas as nações
que pode assegurar a liberdade, a igualdade e a prosperidade individual
e colectiva, através do exercício da democracia política,
económica e sócio-cultural.
No entanto, há fenómenos que constituem sérias
ameaças à paz e estabilidade de Estados e de algumas
regiões do globo, entre os quais a pobreza e o desemprego
crescentes, que estão na origem da imigração
ilegal que começa a preocupar muitos países.
A fome, a pobreza e o desemprego atingem várias centenas
de milhões de cidadãos em África, considerado
como o continente mais pobre, apesar de possuir enormes recursos
naturais.
As suas insuficiências no domínio da gestão
macroeconómica e financeira, a gritante falta de infra-estruturas,
de recursos humanos qualificados, de administrações
públicas e locais eficientes e capacitadas e de tradição
empresarial são citadas em todos os estudos. Não se
vê, todavia, uma atitude pragmática, altruísta
e vigorosa da comunidade internacional em apoio à resolução
da grave crise em que ela se encontra.
Os africanos mais conscientes estão assumindo, cada vez com
maior determinação, as suas responsabilidades perante
a história. Intelectuais africanos decidiram reunir-se aqui
na Baía, para reflexão sobre o seu passado, presente
e futuro.
O que eu penso quanto ao futuro é que África precisa
de que cada governo arrume a sua casa em primeiro lugar, garantindo
paz, promovendo a reorganização e saneamento das finanças
públicas, a definição de objectivos gerais
e específicos a atingir, a criação de condições
para libertar a iniciativa criadora dos indivíduos, das associações
cívicas, profissionais e culturais e dos homens de negócios,
a fim de que:
- Cada sub-região desempenhe a função de coordenação
e harmonização dos grandes projectos de infra-estruturas
sub-regionais, mobilizando para os mesmos os investidores públicos
e privados e promovendo os valores e manifestações
culturais dos nacionais ou estrangeiros que identifiquem os povos
respectivos e sua investigação científica.
- A harmonização de políticas macroeconómicas
e estruturais e a integração económica progressiva
podem ser iniciadas num segundo momento e a integração
política mais tarde ainda.
- O nível continental seja encarado nesta fase com meio de
concertação de políticas e objectivos gerais
de interesse colectivo dos Estados, processando-se de modo paulatino
o caminho para a coordenação dos programas de infra-estruturas
e objectivos específicos e para a integração
posterior a muito longo prazo.
A comunidade internacional pode contribuir de modo vigoroso e decisivo,
seja através da ajuda pública ao desenvolvimento,
seja através do investimento privado, particularmente na
modalidade B.O.T., para a edificação dos diferentes
tipos de infra-estruturas em África.
Os governos africanos não precisam, para o efeito, de ter
uma participação directa na administração
dos fundos. Devem, sim, ter a prerrogativa de aprovar os projectos.
Pode ainda, através de programas dirigidos, promover a formação
acelerada e massiva de recursos humanos e a formação
de formadores a todos os níveis.
A melhor maneira de saldar a dívida de que fala o Presidente
Lula em relação ao nosso continente é, na minha
opinião, contribuir fortemente para a qualificação
dos recursos humanos em África e fora dela.
Só o homem tecnicamente bem formado e politicamente consciente
pode fazer a África prosperar no futuro.
Viva o Brasil!
Viva Angola!”.
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