Luanda,
11 de Setembro de 2006
SENHOR
MINISTRO DA CULTURA, SENHORES DELEGADOS, ILUSTRES CONVIDADOS, MINHAS
SENHORAS E MEUS SENHORES,
Acedi
com prazer ao convite para proferir o discurso de abertura deste
3° Simpósio sobre Cultura Nacional, subordinado ao lema
"Forja da Angolanidade ".
Pronunciei-me
poucas vezes sobre este tema. A minha principal atenção
foi dedicada às inúmeras prioridades que, no plano
político, militar, económico e social, todos tivemos
de assumir para defender a Pátria angolana das agressões
externas e para manter a integridade do nosso território
dentro das fronteiras estabelecidas.
Ao
fazê-lo, estávamos afinal a realizar um acto de Cultura,
pois assim protegíamos a matriz material na qual todas as
manifestações culturais e artísticas se podem
concretizar e expandir, garantindo ao mesmo tempo a sobrevivência
física dos seus criadores e agentes.
Conquistada
a paz, garantido o regresso organizado das populações
dispersas pelo país ou refugiadas no exterior aos seus locais
de origem, feita a reconciliação nacional entre todos
os angolanos, lançadas as bases da reconstrução,
da estabilização e do crescimento económico
do país, estamos hoje em condições de trabalhar
com maior dinamismo para o desenvolvimento da Cultura nacional.
Desde
a proclamação da independência de Angola têm
sido realizadas conferências, seminários e outros eventos
para analisar, debater e dar parecer sobre vários domínios
da Cultura angolana.
Este
Simpósio assume, porém, uma importância especial,
não só porque vai fazer uma apreciação
crítica do trabalho e da experiência acumulada pelo
Governo e pelos agentes culturais, mas também porque constitui
um novo momento de reflexão profunda sobre a Cultura nacional,
os seus fundamentos, situação actual e perspectivas
de evolução.
Entendo
por Cultura a manifestação do conhecimento, da habilidade
e da criatividade que caracteriza um indivíduo, um grupo,
uma comunidade ou uma Nação, de que resulta a produção
de bens materiais e imateriais, num determinado espaço e
tempo. A noção do indivíduo, grupo, comunidade,
tempo e espaço dá-lhe o sentido de um processo, de
algo que é evolutivo.
O homem,
para sobreviver, age sobre o meio que o rodeia, transformando a
natureza e transformando-se a si próprio, porque desenvolve
o seu aspecto fisico e a sua mente. Por ser gregário, precisa
da solidariedade e do apoio dos seus semelhantes, com quem estabelece
as mais diversas relações (humanas, sociais, culturais,
produtivas, económicas, etc.), conducentes à integração
de valores, usos e costumes e à formação de
uma identidade cultural.
As
pessoas podem assim identificar-se com os valores, usos e costumes
de um grupo social, de uma comunidade local, de uma região
ou nação, tudo dependendo do espaço em que
se formam essas relações, dos níveis e da solidez
da integração que se processa no tempo.
O nosso
país já percorreu várias etapas de integração
social e está agora numa fase de consolidação
da identidade nacional. Os angolanos identificam-se hoje com os
símbolos da República; as elites, ou seja, os intelectuais
e técnicos exprimem o seu conhecimento científico
e técnico no sentido da valorização e defesa
do interesse nacional; os criadores das artes e da literatura produzem
bens culturais nacionais; a imensa maioria dos angolanos revê-se
nos usos e costumes positivos das diferentes regiões etnolinguísticas
do país, etc.
Mesmo
que alguns elementos de integração cultural e social
possam ser considerados ainda como sendo frágeis, a tendência
inexorável é a sua consolidação.
O órgão
reitor do sector e os agentes da Cultura têm assim o dever
de promover acções para tomar cada vez mais consistente
essa consolidação, aprofundando, por exemplo, o conhecimento
das manifestações culturais locais, através
da sua inventariação completa e do seu estudo, síntese,
sistematização e divulgação. Isto implica
um esforço sério de pesquisa científica e a
mobilização de quadros que se dediquem integralmente
a esta tarefa.
O folclore,
o artesanato, a tradição oral, os ritos de iniciação
e outros assentes em valores positivos, sempre foram a base de inspiração
da música e das danças populares, da escultura, da
literatura e do teatro, a nível regional.
Sabemos
terem sido parcialmente afectadas ou mesmo destruídas em
todo o país inúmeras cerimónias tradicionais
e manifestações culturais e artísticas do nosso
povo, rompido que foi, e muitas vezes de forma violenta, o contacto
directo com o lugar dos cultos e práticas ancestrais ou com
os seus oficiantes e cultores.
Acho
que este Simpósio deve reflectir sobre se devemos ou não
fazer o resgate dessas manifestações a curto, médio
ou longo prazo no quadro do desenvolvimento da nossa Cultura, da
consolidação da identidade nacional e da Nação
angolana.
Resgatar
algumas dessas valiosas tradições considero que é
um trabalho que se impõe, pois são elas as balizas
que definem o carácter identitário do nosso povo e
que podem transmitir princípios e valores do nosso passado
comum que nos diferenciam dos demais povos. Não é
por acaso que muitos dos nossos criadores já se baseiam nelas
e irão certamente continuar a basear-se para produzirem a
música erudita, a dança contemporânea, as danças
africanas estilizadas, as belas artes e o teatro moderno.
Isso
não deverá impedir, no entanto, que continuemos a
inserir-nos sem complexos na modernidade, apoiando sem reservas
a expressão das novas realizações, inquietações
e aspirações que a transformação das
bases da nossa sociedade e o progresso social e científico
nos impõem.
No
necessário equilíbrio que é preciso estabelecer
entre estes dois parâmetros é que reside a dificuldade
maior, pois existe quase sempre a tendência de se conferir
maior atenção a um deles em detrimento do outro.
O que
importa é não rejeitar nenhuma das duas heranças
de que todos nós somos depositários, a que vem dos
nossos antepassados e nos é transmitida ao longo das várias
gerações, e aquela, cada vez mais determinante, que
nos chega dos nossos contemporâneos, das nossas próprias
vivências actuais e do acesso ao conhecimento científico.
Só
deste modo poderemos conferir à nossa Cultura a sua marca
original, permitindo que se reforcem e consolidem os laços
entre todas as populações que integram Angola e se
criem vínculos de identificação e harmonização
entre todas as suas culturas parcelares e seus representantes.
Já
há muito foi reconhecido e aceite que é na diversidade
e no cruzamento das formas próprias de expressão de
agrupamentos humanos de diversas origens e características
que se geram as formas mais complexas de riqueza espiritual e mesmo
de realização sócio-económica.
Assim
sendo, temos de assumir e entender que Angola absorveu ao longo
de séculos elementos culturais de povos oriundos do interior
e do exterior do Continente, que configuram o seu perfil actual
como Nação soberana e independente.
Negar
ou escamotear essa realidade, que nos coloca numa posição
singular no contexto de África, seria negar-nos a nós
próprios ou amputar-nos de elementos essenciais para a definição
da nossa identidade.
É
tendo em linha de conta todos estes aspectos que consideramos a
questão da Cultura como uma variável estratégica
de grande importância, com efeitos imediatos na coesão
interna da nossa sociedade, bem como na nossa marcha em direcção
aos objectivos globais que nos propomos atingir, tais como construir
uma nação unida, desenvolvida e próspera com
uma cultura fluorescente e um Estado de Direito, Democrático
e Social.
Senhor
Ministro,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A Política
Cultural de Angola e a sua Estratégia, a apresentar neste
Simpósio, são suficientemente claras e abrangem com
rigor todos os domínios da vida cultural do país,
propondo iniciativas concretas para o desenvolvimento cultural,
para o fomento da criação artística e para
a preservação da nossa memória colectiva.
Elas
pretendem conciliar o resgate dos traços tradicionais positivos
que não se opõem à ética, à moral
social e ao desenvolvimento com o aprimoramento do acesso à
modernidade dos novos agentes e criadores da cultura, em domínios
tão diversos como os da Música e Dança, Literatura
e Tradição Oral, Teatro, Cinema, Artes Plásticas
e Escultura, Folclore e Artesanato, Sítios históricos
e Monumentos, Museus, Arquivos, Bibliotecas, Casas de Cultura, etc.
O apoio
a prestar pelo Estado à sua materialização
será fundamental, sobretudo no que diz respeito à
criação de infra-estruturas culturais, à formação
de quadros, à elaboração de legislação
cultural (por exemplo sobre o mecenato, os direitos de propriedade
intelectual e o registo internacional de instrumentos musicais tradicionais)
e também ao fomento da cooperação e intercâmbio
internacional, com enriquecimento mútuo.
Na
esteira destas ideias considero ainda necessário que se elabore
um conjunto de diplomas referentes às artes, ao espectáculo,
ao cinema e audiovisual que estabeleça o quadro normativo
regulador da concessão de apoios do Estado ao sector, criando-se
as condições que permitam o acesso das pessoas a novas
oportunidades de fruição cultural e ao pluralismo
da criação cultural.
Enquadram-se
nessa perspectiva as iniciativas que o Governo já leva a
cabo com vista à construção de edificios para
albergar o Instituto Médio de Artes Cénicas, o Instituto
Superior de Artes, o Museu de Arte Contemporânea, o Arquivo
Histórico e a Biblioteca Nacional. Estes assuntos encontram-se
em andamento e alguns projectos podem começar a ser implementados
ainda a partir de 2007.
As
relações com a UNESCO, organismo das Nações
Unidas vocacionado para a Ciência e Cultura, devem ser aprofundadas
igualmente neste contexto para que beneficiemos de toda a sua experiência
e junto dele possamos fazer diligências para a recuperação
do património que foi levado do país durante a colonização.
Uma
atenção especial deve ser dada as diversas línguas
faladas em Angola pois é através delas que se estabelecem
as formas de comunicação e de integração
das populações no todo nacional.
Devemos
ter a coragem de assumir que a Língua Portuguesa, adoptada
desde a nossa Independência como língua oficial do
país e que já é hoje a língua materna
de mais de um terço dos cidadãos angolanos, se afirma
tendencialmente como uma língua de dimensão nacional
em Angola.
Isso
não significa de maneira nenhuma, bem pelo contrário,
que nos devemos alhear da preservação e constante
valorização das diferentes Línguas Africanas
de Angola, até aqui designadas de "línguas nacionais",
talvez indevidamente, pois quase nunca ultrapassam o âmbito
regional e muitas vezes se estendem para além das nossas
fronteiras.
Sabemos
que uma língua não é apenas um veículo
de comunicação entre os membros de uma comunidade,
mas envolve todo um património de conhecimentos e formas
culturais transmitido ao longo de séculos ou mesmo milénios,
que irremediavelmente se perderia se ela deixasse de ser falada.
Impõe-se
por essa razão que se dê um estatuto científico
às diversas línguas do nosso país e que as
mesmas sejam introduzidas nos programas de ensino e nos órgãos
de comunicação social das regiões em que são
faladas, para permitir a sua vigência na actualidade e a transmissão
às gerações futuras da riqueza humana e moral
que lhes está associada.
Também
não podemos esquecer que os meios de comunicação
social, para além das funções que lhes são
normalmente reconhecidas (de informação, formação
e entretenimento), são um veículo importantíssimo
na transmissão de conteúdos culturais e artísticos
e devem manter uma atitude de crítica construtiva em relação
a todos eles, fornecendo meios de análise mais adequados
à sua interpretação e contribuindo assim para
a formação do gosto do público.
Temos
igualmente de saber utilizar com critério as novas tecnologias,
pois embora elas à partida reforcem a desigualdade perante
a informação e a cultura à escala planetária,
impondo unilateralmente quantidades desordenadas e não controladas
dos seus próprios produtos, também nos permitem aceder
de maneira fácil e rápida a importantes informações
e conteúdos culturais, científicos ou de lazer.
Senhor
Ministro,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A Nação
angolana é uma realidade em processo de integração
e consolidação, em que há elementos de integração
ainda frágeis e outros já consolidados.
A integração
ocorre através da assimilação de valores culturais
específicos e dos usos e costumes de uma comunidade por pessoas
de outra comunidade e vice-versa, de modo natural, provocada pelo
contacto e convivência humana num espaço comum, podendo
ela ter uma dimensão local, regional ou nacional.
Na
formação da vontade política e na definição
das vias para a sua concretização, os actores políticos
e as autoridades constituídas têm o dever de promover
acções e produzir factos de carácter social,
político, moral e cívico que fortaleçam os
elementos frágeis da integração nacional.
A acção
excessivamente centrada na integração local ou regional
pode levar ao surgimento do divisionismo e do micro-nacionalismo,
fundados numa base etnolinguística e no separatismo, que
inevitavelmente deixariam desprotegidos e limitariam os direitos
de todos os outros cidadãos que não se identificassem
nem aceitassem essas reivindicações absurdas.
Há
assim que inserir os programas de acção cultural nos
conteúdos das acções estratégicas do
Estado e das políticas que lhe dão corpo.
Neste
particular, devemos também tomar nossa a ideia já
difundida e historicamente comprovada de que a liberdade e o pluralismo
cultural estão mais garantidos dentro de Estados grandes,
que se reconhecem como multiculturais, do que em Estados pequenos
que perseguem uma homogeneidade cultural e etnolinguística.
O sistema
de educação e ensino é um meio privilegiado
que pode concorrer para esse fim, se desde a iniciação
até ao ensino superior for definido um trabalho sistematizado
de formação cultural, patriótica e cívica,
conducente à criação da nova mentalidade erigida
em valores, princípios, usos e costumes de carácter
nacional.
Este
"sistema" não deve excluir obviamente os particularismos
locais ou as especificidades regionais, mas deve sim estabelecer
uma escala correcta e hierárquica de valores, consensual
e naturalmente adquiridos.
Nesta
ordem de ideias, os Programas de Acção Cultural devem
definir conteúdos de trabalho para a actividade regular e
sistematizada de carácter local, regional e nacional.
Os
rituais de iniciação e outros, as manifestações
folclóricas de música e dança, o artesanato,
o teatro comunitário e a tradição oral têm
naturalmente um carácter local. Mas as danças africanas
de Angola, as canções, o teatro, as artes plásticas
populares podem ter um carácter regional ou nacional.
Do
mesmo modo, as manifestações culturais eruditas em
qualquer domínio e exibidas em qualquer espaço territorial
têm sempre um carácter nacional ou universal.
Há
assim que investigar cientificamente para conhecer toda a realidade
cultural nacional, estudar, sistematizar e divulgar as manifestações
culturais que se realizam a todos os níveis e valorizá-las,
ressaltando a importância dos elementos que concorrem para
a consolidação da identidade nacional e da Nação
angolana.
O mundo
tende para uma integração cada vez maior e é
hoje caracterizado pelo facto de a informação, as
manifestações culturais, os valores, usos e costumes
dos países mais desenvolvidos influenciarem os povos das
nações menos desenvolvidas.
"Nesta
era da Globalização, em que cada país é
um mercado integrado num mercado global, em que a informação,
os valores da cultura universal e as normas da civilização
ocidental se disseminam sem fronteiras, quem não é
capaz de administrar o seu mercado e preservar os valores da sua
identidade, transformando-os em contributo ao processo global, fica
sem expressão " (citação 11 de Novembro
2005).
De
facto, nesse processo em fase constante de aceleração
só poderão afirmar-se e manter a sua independência
aqueles países que definirem repertórios de acção
e de representação, de língua e de cultura
que permitam aos seus respectivos povos interagir com outros povos.
A atitude a assumir, neste contexto, por nós, será
evidentemente um acto de cultura e consistirá na capacidade
de organizarmos as referências do nosso passado comum e também
de estruturarmos, com base num capital de normas e de bons hábitos,
as actividades e os esquemas de acção e de comunicação
que o presente suscita.
Este
espírito de abertura ao mundo, que caracteriza os angolanos,
permitenos discutir em todas as áreas e afirmarmo-nos perante
quem quer que seja sem complexos.
Esta
atitude que estamos a forjar se encontra, aliás, na base
dos êxitos obtidos no panorama internacional e deve presidir
as nossas acções internas, também nos domínios
empresarial, social e organizacional, a fim de no mais curto espaço
de tempo obtermos ganhos no combate contra a fome, o desemprego,
as doenças endémicas, o analfabetismo e outros males
de que ainda enferma a nossa sociedade.
Desenvolver
a auto-estima ou confiar em nós mesmos com humildade, aprender
cada vez mais e adquirir aptidão para trabalhar para o êxito
ou para a vitória. Estar no mundo com uma identidade cultural
própria, enraizada na nossa história e na do nosso
Continente, mas aberta a um património de valores que já
pertence a toda a Humanidade e que nos permite competir em pé
de igualdade com outros povos do mundo.
Desejo
a todos os delegados uma discussão profunda, franca e profícua
de todos os temas agendados, que permita chegar a conclusões
consensuais e criativas sobre o desenvolvimento da Cultura Nacional.
Viva Angola! |