Cedo
se embrenhou em actividades políticas e experimentou
a prisão pela primeira vez em 1951, ao ser preso
quando reunia assinaturas para a Conferência Mundial
da Paz em Estocolmo.
Retomando
as actividades políticas após a sua libertação,
Neto tornou-se representante da Juventude das colónias
portuguesas junto de um movimento da juventude portuguesa,
o MUD juvenil. E foi no decurso de um comício de
estudantes a que assistiam operários e camponeses
que a PIDE o prendeu pela segunda vez.
Preso
em Fevereiro de 1955, só veio a ser posto em liberdade
em Junho de 1957.
Por
altura da sua prisão em 1955 veio ao lume um opúsculo
com os seus poemas.
Entretanto, certos
poemas que descreviam as amargas condições de vida
do Povo angolano e a fervente crença do poeta no
futuro haviam já atravessado, anos antes, o muro
de silêncio que Portugal erguera em torno da repressão
que exercia sobre os democratas e dos crimes brutais
que se perpetravam nas colónias.
O
caso da prisão do poeta angolano desencadeou uma
vaga de protestos em grande escala. Realizaram-se
encontros; escreveram-se cartas e enviaram-se petições
assinadas por intelectuais franceses de primeiro
plano, como Jean-Paul Sart, André Mauriac, Aragon
e Simone de Beauvoir, pelo poeta cubano Nicolás
Gullén e pelo pintor mexicano Diogo Rivera. Em 1957
foi eleito Prisioneiro Político do Ano pela Amnistia
Internacional.
Em
10 de Dezembro de 1956 fundaram-se em Angola vários
movimentos patrióticos para formar o MPLA, Movimento
Popular para Libertação de Angola, o movimento que
lançaria a luta armada do povo angolano contra um
Portugal fascista e obstinado, cujas estruturas
económicas e sociais eram demasiado obsoletas para
permitir a aplicação das soluções neocolonialistas
procuradas noutros lugares. Começando por se organizar
nas áreas urbanas, entre os operários e intelectuais
progressistas, o MPLA viria a mostrar em breve as
suas notáveis flexibilidade e capacidade de adaptação
às exigências do momento quando passou à luta armada,
criando um exército do povo para conduzir uma guerra
que o poeta viria a chefiar.
Em
1958, Agostinho Neto doutorou-se em Medicina e,
casou no próprio dia em que concluiu o curso. Nesse
mesmo ano, foi um dos fundadores do clandestino
Movimento Anticolonial (MAC), que reunia patriotas
oriundos das diversas colónias portuguesas.
Neto
voltou ao seu País, com a mulher, Maria Eugénia,
e o filho de tenra idade, em 30 de Dezembro de 1959.
Ocupou, então, a chefia do MPLA em território angolano
e passou a exercer a medicina entre os seus compatriotas.
Muitos membros do Movimento tinham sido forçados
ao exílio nos anos que antecederam o seu regresso
à Angola, tendo estabelecido um quartel-general
próprio em Conacry, na independente República da
Guiné, donde podiam informar um mundo ainda em larga
medida ignorante da situação em Angola.
Sucederam-se novas
prisões em Julho de 1959, incluindo a de Ilídio
Machado, o primeiro presidente do MPLA, um dos réus
do célebre julgamento dos Cinquenta, julgamento
militar secreto em que foram aplicadas severas penas
à destacados militantes do MPLA, alguns dos quais
foram julgados na ausência, dado que haviam já optado
pelo exílio.
Em
8 de Junho de 1960, o director da PIDE veio pessoalmente
prender Neto no seu Consultório em Luanda. O que
se seguiu foi um exemplo típico da brutalidade assassina
praticada pelas autoridades fascistas. Uma manifestação
pacífica realizada na aldeia natal de Neto em protesto
contra a sua prisão foi recebida pelas balas da
polícia. Trinta mortos e duzentos feridos foi o
balanço do que passou a designar-se pelo Massacre
de Icolo e Bengo.
Receando
as consequências que podiam advir da sua presença
em Angola, mesmo encontrando-se preso, os colonialistas
transferiram Neto para uma prisão de Lisboa e, mais
tarde enviaram-no para Cabo Verde, para Santo Antão
e, depois para Santiago, onde continuou a exercer
a medicina sob constante vigilância política. Foi,
durante este período, eleito Presidente Honorário
do MPLA.
Na
altura que mereceram as honras das primeiras páginas
dos jornais as notícias da captura, no oceano Atlântico,
de um navio português, o Santa Maria, por um grupo
de democratas portugueses chefiado por Henrique
Galvão, ex-funcionário colonial que acabava de escapar
à prisão em Portugal! E que havia denunciado a existência
de trabalhos forçados em Angola num fulminante relatório
escrito em 1961. Correu o boato de que o navio rumava
à Luanda, boato esse que levou à capital angolana
grande número de jornalistas estrangeiros. Os militantes
do MPLA que operavam clandestinamente em Luanda
decidiram fazer coincidir a sua planeada acção para
libertar os prisioneiros políticos com a presença
desses jornalistas, no intuito de atrair as atenções
do mundo para a dolorosa operação ao domínio português
na colónia de Angola.
Puseram
o seu plano em prática. As primeiras horas do dia
4 de Fevereiro de 1961, as prisões de Luanda foram
assaltadas por homens munidos de catanas armas de
fogo, algumas das quais capturadas durante um ataque
realizado antes contra um Jeep da polícia. Se bem
que os assaltantes não tivessem conseguido os seus
intentos, este acto de coragem dirigido contra os
baluartes da opressão foi a primeira salva da luta
armada que alastraria pelo território angolano,
conduzida pela determinação de homens e mulheres
preparados para superar todas as dificuldades e
que, neste momento, já dura há mais tempo do que
qualquer luta armada em África.
À
esta explosão sucedeu uma repressão brutal. Bombardearam-se
aldeias, e aqueles habitantes que conseguiram fugir
foram metralhados e atacados com napalm. O número
total das vítimas tem sido calculado entre vinte
e trinta mil, mas pode muito bem ter sido superior,
dado que as autoridades coloniais nunca se preocuparam
com manter um recenseamento exacto da população
africana. Espalhando o terror, as autoridades fascistas
mataram e mataram recorrendo a métodos tão horrendos
como o agrupar pessoas e passar-lhes um bulldozer
por cima. Nas áreas urbanas, a sua acção tinha por
objectivo a liquidação dos africanos instruídos,
os ditos assimilados, receando que estes elementos
assumissem a direcção das massas.
Algumas
fotografias conseguiram chegar à imprensa estrangeira,
de entre as quais merece especial referência uma
que foi inserta em diversos jornais (por exemplo,
no Afrique Action, semanário que se publica em Tunes).
Nessa fotografia, um grupo de jovens soldados portugueses
sorriam para a câmara, segurando um deles uma estaca
em que foi espetada a cabeça de um angolano. O horror
transmitido por esta fotografia despertou muitas
consciências para os crimes nefandos que se perpetravam
em Angola. Foi precisamente por mostrar esta fotografia
a alguns amigos em Santiago (Cabo Verde) que Neto
foi preso na cidade da Praia e transferido depois
para a prisão de Aljube em Lisboa aonde deu entrada
em 17 de Outubro de 1961.
Acima
de tudo, o MPLA lançou uma implacável campanha em
prol da sua libertação, apelando para a solidariedade
mundial para com Neto e todos os prisioneiros políticos
angolanos.
Sob
esta forte pressão, as autoridades fascistas viram-se
obrigadas a libertar Neto em 1962, fixando residência
em Portugal. Todavia, pouco tempo depois da saída
da prisão, a eficaz organização do MPLA pôs em prática
um plano de evasão e Neto saiu clandestinamente
de Portugal com a mulher e os filhos pequenos, chegando
a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha ao
tempo a sua sede exterior, em Julho de 1962. Em
Dezembro desse ano, foi eleito presidente do MPLA
durante a Conferência Nacional do Movimento.
Agostinho
Neto na África de expressão portuguesa é comparável
à Léopold Senghor na África de expressão francesa.
Presidente
Neto lança-se numa intensa actividade desde 1963,
já eleito Presidente do MPLA, quer no interior,
quer no exterior do País. Dirigiu pessoalmente as
relações diplomáticas do Movimento, podendo assim
visitar numerosos países e contactar grandes dirigentes
revolucionários que nele reconheceram sempre o guia
esclarecido de um povo heróico e generoso, que travava
uma guerra justa pela independência nacional, pela
Democracia e pelo Progresso Social.
Com
a "Revolução dos Cravos" em Portugal e a derrocada
do regime fascista de Salazar, continuado por Marcelo
Caetano, em 25 de Abril de 1974, o MPLA considerou
reunidas as condições mínimas indispensáveis, quer
a nível interno, quer a nível externo, para assinar
um acordo de cessar-fogo com o Governo Português,
o que veio a acontecer em Outubro do mesmo ano.
Presidente
Neto regressou à Luanda no dia 4 de Fevereiro de
1975, sendo alvo da mais grandiosa manifestação
popular de que há memória em Angola. Dirige, pessoalmente,
a partir desse momento toda a acção contra as múltiplas
tentativas de impedir a independência de Angola,
proclamando a Resistência Popular Generalizada.
E
a 11 de Novembro de 1975, após 14 anos de dura luta
contra o colonialismo e o imperialismo, o Povo Angolano
proclamou pela voz do Presidente Neto a independência
Nacional, objectivo pelo qual deram a vida tantos
e tão dignos filhos da Pátria Angolana, tendo sido
nessa altura investido no cargo de Presidente da
República Popular de Angola.
Ao
intervir no acto da proclamação da Independência,
o Presidente Neto sintetizou claramente quais as
meta e meios para as materializar, definindo como
objectivo estratégico a construção de uma nova sociedade
sem exploradores nem explorados.
O
Processo de Reconstrução Nacional nos domínios político,
económico e social com vista à melhoria das condições
de vida de todo o Povo Angolano, a concretização
das suas aspirações mais legitimas, tornou-se então
a preocupação fundamental da direcção do País, que
firmemente aponta como facto decisivo o papel do
trabalho de todo o Povo na criação das bases materiais
e técnicas para a construção do Socialismo. Em Dezembro
de 1977, funda-se então o Partido de Vanguarda,
o MPLA - Partido do Trabalho.
A
figura de Neto, como militante total, corajoso revolucionário
e estadista eminente não se limita às fronteiras
de Angola. Ela projecta-se no contexto africano
e mundial, onde a sua prática e o seu exemplo servem
de impulso à luta dos Povos que, no Mundo, estão
ainda submetidos à humilhação, ao obscurantismo
e à exploração.
Assim é que, nas tribunas internacionais a voz de
Neto nunca deixou de denunciar as situações de dominação
colonial, neocolonial e imperialista, pela Libertação
Nacional, a favor da independência total dos Povos,
pelo estabelecimento de relações justas entre os
países e pela manutenção da paz como elemento indispensável
ao desenvolvimento das nações.
Agostinho
Neto foi também um esclarecido homem de cultura
para quem as manifestações culturais tinham de ser,
antes de mais, a expressão viva das aspirações dos
oprimidos, armas para a denúncia de situações injustas,
instrumento para a reconstrução da nova vida.
A
atribuição do Prémio Lótus, em 1970, pela Conferência
dos Escritores Afro-Asiáticos e outras distinções
atribuídas a algumas das suas obras de poesia, são
mais um reconhecimento internacional dos seus méritos
neste domínio.
Também
na República Popular de Angola, a eleição de Neto
como Presidente da União dos Escritores Angolanos
cuja proclamação assinou, traduz a justa admiração
dos homens de letra do jovem País, pelo seu mais
destacado membro, que tão magistralmente encarou
a "SAGRADA ESPERANÇA" de todo o povo .